quarta-feira, 26 de maio de 2010

PERMACULTURA : O QUE FAZEMOS EM CASA TEM IMPACTO NO MUNDO


Você reparou nas manchetes mais recentes dos jornais? Racionamento de água, poluição, apagão, rodízio de veículos, aumento no preço do petróleo, aquecimento global, queimadas. São problemas que afetam o nosso dia-a-dia e estão conectados com o consumo e hábitos da vida moderna. E, quer saber? Eles começam no seu quintal. No cesto de lixo da sua casa, no porta-malas cheio de sacos de supermercado que você descarrega em casa. Sim, isso tem muito a ver com você. Sua moradia não acaba no muro da sua casa ou na porta do seu apartamento. Ela vai além. Você mora em uma cidade, em um país, neste planeta. E, olhando desse ponto de vista, convenhamos: esse seu quintal anda bem mal cuidado, não?




É assim que sua casa é enxergada pela permacultura, uma filosofia ou ciência criada nos anos 70 pelo australiano Bill Mollison. Sua idéia era criar ambientes humanos sustentáveis, baseados na observação da natureza e na sabedoria contida em sistemas produtivos tradicionais. Ou seja, Bill copiou o que a natureza faz por si só, aliou a isso o que faziam nossos avós (e algumas culturas menos globalizadas), adicionou tecnologias limpas e batizou sua tese de permacultura, que quer dizer cultura permanente, aquela que dura, tem vínculo, ética e harmonia com a terra, que não é descartável, que não é imediata, não é efêmera e, melhor de tudo, não polui.



Mas logo o australiano percebeu que, para que a coisa fosse realmente sustentável, era preciso ir além. De nada adiantaria essa ética de cuidar da Terra sem incluir o cuidado com as pessoas e suas necessidades essenciais. Era preciso enfiar todo mundo na conta. A partir daí, Bill formatou uma série de princípios (leia a lista completa na página ao lado) que valem para todas as relações humanas, seja com outras pessoas ou com o meio ambiente. A espinha dorsal da idéia é uma espécie de avesso da globalização. Em vez de grandes deslocamentos de alimentos, combustíveis e materiais de um lado para o outro, Bill pregava a otimização dos recursos locais, numa lógica claramente preservacionista, pensando sempre nas conseqüências em longo prazo e nas futuras gerações.



O problema é a solução

Eis um resumo do modo de ver da permacultura, nas palavras do arquiteto Marcelo Bueno, diretor do Instituto de Permacultura da Mata Atlântica (Ipema): "O que a permacultura estimula, resumidamente, é um novo estilo de vida, mais simples, mais próximo do natural, com menos consumo e mais auto-suficiência do ser humano. Precisamos diminuir o impacto do ser humano na natureza. Construir sem destruir, resolvendo os problemas localmente, utilizar materiais recicláveis e ecologicamente corretos, economizar energia, consumir objetos que utilizem tecnologias renováveis e tantos outros exemplos".

Marcelo é o que se poderia chamar de um permacultor que faz a lição de casa. O lixo, por exemplo, para ele não é problema. "Separo tudo, vendo uma parte, reutilizo outra. Também procuro produzir o mínimo possível de resíduos, evito saquinhos de supermercado (levo minha própria sacola), vou mais à feira que ao supermercado e tento comprar somente produtos in natura, de preferência orgânicos". No telhado de sua casa, dois sistemas artesanais de energia solar aquecem os banhos: um deles, uma engenhoca com mangueiras pintadas de preto que passam por dentro de um pneu. Toda a água da casa é filtrada com pedras, barro e tanques de água e depois reutilizada para regar seu jardim, que está cheio de plantas comestíveis. Boa parte de sua água ele capta da chuva. Marcelo tem até um banheiro seco, onde o dejeto humano é misturado com serragem e folhas e vira adubo para suas hortaliças. "Não são dejetos humanos, são recursos humanos. Aprendi com a permacultura que podemos transformar nossos problemas em soluções se trabalharmos com eles e não contra eles. Reduzi minha dependência de abastecimento de água, luz e comida e ainda gasto menos dinheiro", diz o arquiteto.



Cada um, cada um

Pois é. Aqui em vida simples a gente sempre tenta ver as coisas pelo lado positivo, mas nesse caso tem uma verdade da qual ninguém escapa: para ter a consciência ambientalmente limpa, é preciso se mexer e dar alguma cota de sacrifício pessoal. Sim, porque não é sustentável esse padrão de conforto desfrutado por você - que tem poder aquisitivo para comprar esta revista - ou eu, desculpe lhe dizer. A conta pelos abusos, como mostram as manchetes, está chegando. E a dívida só tende a aumentar.

A boa notícia (a gente sempre arranja uma, né?) é que existem infinitas formas de ajudar, e certamente haverá uma que lhe agrade. Nem todo mundo se dispõe, como o Marcelo, a transformar sua morada e sua vida em atos conscientes, buscando sustentabilidade. Nesse ponto, a permacultura tem uma vantagem: por partir da observação da natureza, ela busca a solução caso a caso. Cada um deve procurar suas respostas de como diminuir o impacto na natureza no próprio cotidiano. É uma proposta aberta, ou, uma metamorfose ambulante, como diria Raul Seixas (como não citar Raul em um assunto desses?).



"A permacultura não é um saber específico, não criou um caminho, mas jogou luzes nesse caminho. Essas luzes são alguns princípios e atitudes que a permacultura formulou e que podem orientar nossas ações", diz a engenheira agrônoma Cristiana Reis. "Cada, pessoa, clima, comunidade, ou região exige uma resposta diferente. É observar a natureza e praticar, em qualquer lugar que você esteja ou more."

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